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Moisés tinha um grande problema com todas aquelas tribos.
Tantos anos já a caminhar, um destino cada vez menos palpável.
Nenhum estudioso dirá que foi medo de lhe crescer os cornos.
Nenhum entendido, Teólogo ou não, falará da moral de Moisés.
“Não cobiçarás a mulher do próximo”
Felícia foi criada numa redoma. O chão de sua casa era limpíssimo para que ela engatinhasse.
As paredes marcadas com enormes digitais para onde deveria recorrer se tropeçasse.
Cinco empregadinhas, nenhuma delas negra, orgulhavam-se os pais de Felícia.
Talheres de plástico e precisas 180 mastigadas para não se engasgar.
babador, toalha felpuda, água morna e nada de Uísque.
Só sentia dor esta menina, quando tinha de cuidar das coisas de fêmea.
A primeira vez que depilou parou no pronto socorro.
Aos 18 acreditou ter chegado à madureza. Mandou despedir três empregadas e contratou um chofer (Era crescida, escova sozinha os dentes, já podia andar de carro). Conheceu Dínamo.
Dínamo era homem e perdido. Jogado à sorte do mundo. Cambaleando pelas séries da vida, sem nenhuma destreza, sem nem mesmo passaporte. Dínamo era tão vivido que aos 15 seu cabelo já era quase todo branco. Podia ele ter sido o tal chofer de Felícia, procurava um emprego que lhe desse uns tostões para perder na noite, mas quis o destino dos dois que por amantes fossem reconhecidos. Apaixonados romperam, cada um, com seus entraves. Transaram. Gozaram. Largaram as convenções. Foram felizes por breves momentos. Quando os conheci, Dínamo ensinava Felícia que existiam tantas pessoas no mundo que mal se podia calcular. Ao vê-la reticente esbocei leve sorriso.
Foram anos encontrando os dois em festas, momentos pequenos, idas e vindas.
Certo dia, passei na casa de Dínamo para pegar umas revistas que havia encomendado.
Porta do quarto trancada, fiquei na sala a esperar. Aconcheguei em fofo sofá.
Bunda quase caindo, costas no forro, cabeça já doendo pescoço, já doendo nuca, ouvido ouve:
“Nhéééé´”
Porta do quarto abre barulhenta...
Uma perna
Um quadril
Um tronco esguio
Cabelo desgrenhado
Fundas olheiras
Fumo na boca
Felícia
Num segundo Moisés fala a meu ouvido que não cobice a mulher do meu próximo. Eu lhe pergunto noutro segundo, se não posso fazer mesmo que meu próximo seja o Demônio.
Sem nenhuma resposta eu divago que se fosse mesmo um bom varão iria ao quarto, esmurrava Dínamo, jogava Felícia nos ombros e a levava para seus pais em sua casa de vidro.
Não o sou, nem jamais serei.
Peguei minhas revistas e saí de lá apaixonado pela nova Felícia que o Diabo tanto trabalho teve para aliciar.
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