quarta-feira, janeiro 6

Mulher Gigante

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Um tanto de gente das formas mais diversas.
Algumas de cabelo a escorrer, outras com camisa a marcar um forte corpo.
O engraçado era que poucas estavam a sorrir.
Engraçado por que ali era um lugar definitivamente para sorrisos.
Uma noite de benção, com as musicas de cartolas e cartolas e sandálias.
Passava eu por ombros a dar de ombros até ter vontade de ficar onde parecia ser o centro.
Numa multidão é fácil medir o centro. Lá é onde tudo converge. Para onde caminham as desinibidas cinturas, as lisas mãos em bolsos, toda força de atração possível.

Uma dessas forças era um branco sorriso. Ela era alta e tinha a cabeça enorme. Estacionada na minha frente ficava impossível de ver o palco. Deixei então de olhar para o palco e passei a prestar atenção em sua esquisita figura tentando se movimentar em sincronia com aquele som. Agora percebo que aquele fora o primeiro jogo entre nós e ela vencia. Como quem não quer nada, mas tudo quer, passei a mão em sua cintura. Ela virou. Muito mais lenta do que eu imaginei ou estou acostumado. Como se não tivesse medo ou receio. Como se quisesse aproveitar cada segundo desta virada. Fazendo esforço para seu corpo enorme e a primeira vista desengonçado, completar um giro apoiado em brancas pernas de carvalho. Claro que tive de olhar para cima para encará-la nos olhos.

Reservo-me um mínimo tempo para apreciar a beleza desta lembrança...

Seus olhos eram como todo o resto nela. Sem definição alguma. Um tom de verde remetendo a um mar sujo e revolto. Que levanta tanta areia, que essa areia se achava no direito de dizer que cor o mar deveria ter. Mas não quero me ater aos olhos. O sorriso. Para além de qualquer Monalisa ou Botticelli ou vanguarda pervertida ao insuficiente. O Sorriso de Gretha...

Reservo-me a outro direito inventado. O de não adjetivar mais, pelo não sentido que isso faz a cada palavra proferida. Como se a cada parca exemplificação minha, sua boca fosse menos aberta ou sua face menos tenra.

Desta vez eram os braços ou tentáculos, ainda não estou muito certo, que rondavam minha cintura. E então bailávamos. E então eu acariciava sua outra mão em meu ombro e demorava minutos incontáveis por percorrer aqueles dedos. Em pouco tempo, o ritmo dela foi cedendo. Aqueles quadris piramidais iam ganhando contornos arredondados. Eu a disciplinava com a cadência do meu samba, como se transmutasse uma colegial formal numa Waldorf.

Gretha não parava de gostar daquilo. Por vezes tentei afastá-la do meu corpo para que se sentisse livre e fosse procurar outros mais fortes, ou mais altos, ou mais sábios, ou que melhor falassem sua língua. Mas Gretha não se ia. Aproveitava que eu a distanciava e rodopiava por baixo do meu braço. Eu tinha de fazer um esforço descomunal para não perder meu tão estimado braço para o passo de dança daquela mulher gigante. E assim giramos e giramos até que a canção fosse perdendo força. Antes do fim, Gretha me fez uma confidência muda. Levantou vagarosamente sua avantajada cabeça abrindo lentamente os olhos de mar revolto.

Concentrava-se nos meus rápidos pés. Oxalá que tenha sonhado! Mais um de seus mistérios sem resposta. Ainda sorrindo, provavelmente com câimbras nas bochechas, ela aplaudiu a banda e me abraçou despedindo-se.

Gretha, além de enorme, tinha 22 anos, visitava a Bahia pela primeira vez, era Sueca mas morava na Noruega e era garçonete. Sumiu do mesmo jeito que apareceu. No meio dos ombros dos desconhecidos. Foi sem me dar sequer um beijo...



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2 comentários:

Anônimo disse...

rpz, a virada da cabeçuda foi insana...

Anônimo disse...

Acontece no Pelô, acontece em Gerônimo é coisa!
Vindas e idas. Pessoas pessoas tantas, espalhando fascinantes desejos.

O Pelô é tão vagabundo quantos aqueles que lá vão à procura de diversão instantânea...e que às vezes acha.