quinta-feira, janeiro 7

Anca de Branca

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Janice nunca me amou, mas desejou por quase uma noite inteira.
Era um dia de carnaval e todas as contentes pessoas saltitavam fantasiadas.
Um ano atrás, Janice me olhou e sabia que eu seria seu aquela noite.
Se te interessas saber se eu havia reparado ou sentido o desejo de Janice,
te respondo que não. Sempre fui afeito aos que não reparam. De uma espécie, Bococius Altus.
Vivia eu uma triste rotina de não notar que era notado, além de tentar a todo custo driblar uma inconveniente fobia de multidão. Pouco diz também “Multidão”. Aquilo era uma batalha Alexandrina. Corpos e cabeças e pernas por demais. Todos fantasiados a pescar um olhar de atenção, uma mísera lasca de presença. A noite parecia dançar junto com aqueles mascarados e as luzes dos enormes carros de som. Boa noite para pescaria sim. Estávamos todos certos.
Pulava, então, vestido de palhaço, enquanto que Janice era a própria maravilha.
Beijou um, dois, outro terceiro que nem mesmo homem era. Depois desse, variou e beijou uma mulher e cinco, seis, muitos.

Eu?

Ainda com medo. Dor de cabeça, peito apertado, muito medo...
Covarde que sou procurei alguma boa lembrança para me apregoar, mas não encontrei.
O som era muito alto, a felicidade das pessoas dilacerante. Minha agonia atrapalhava a pescaria de todos, por pouco não viraram para mim, as milhares de pessoas, me mandando ser feliz para não lhes estragar a festa. Dei sorte. Um elemento tão mágico quanto inusitado me acalentou. A bunda de Janice. Concordo que geralmente bundas não acalentam, provocam sussurros, libidinagens diversas, mas acalmar parecia que só comigo e naquela situação mesmo. Ao notar que eu não a notava, Janice começou a ficar tão agoniada quanto eu. Num sobre salto, jogou-se na minha frente e começou a rebolar suavemente. Era muita gente, eu poderia ignorar se pudesse, mas a bunda de Janice...

Ela era linda, cabelos cacheados, boca pequena, olhos amarelos, mas nada era tão importante para mim naquele momento como a bunda. Janice era tão pequena e branca, como podia ter uma bunda tão grande, de onde vinha aquela anca de mulata assanhada? Quanto mais ela se apertava contra mim, mais eu a sentia e mais tranqüilo ficava. Dei graças a Deus. Quase chorei de emoção. Todas as minhas incipientes preocupações tornaram-se em pó perto do mistério que era desvelar aquela bunda.

Seguimos mais alguns metros. Eu a inventar qualquer desculpa para manter aquela bunda na minha frente. Mas num desses momentos que não deveriam existir, uma falha de cálculo dos projetistas celestiais, a multidão se dissipou e não era mais proeminente que nossos corpos ficassem tão próximos. Senti um arrepio subir e descer a espinha por pelo menos cinco vezes. Janice então virou e me deu um beijo. Desses cheios de furor, capazes de te levar a uma celebração ecumênica de troca de votos no dia seguinte. Aquele beijo foi minha ruína...

Nunca mais senti a bunda de Janice


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2 comentários:

Anônimo disse...

que porra é essa, véiu...

que texto insano.

senti a bunda daqui.



dinho

Unknown disse...

- As brancas parecem ter um encanto diferenciado na Bahia...