sábado, janeiro 9

Mística

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Existe um mar na parte alta da minha terra que é diferente dos demais. Ele é de areia suja e convida os estrangeiros a se banhar. Todas as Syrins que hoje nadam pelo mundo vieram daqui. Deixaram, no entanto, das marinhas pedras até as cadeiras surradas, um encantamento típico das histórias a elas atribuídas. Essa é uma praia que funciona de dia e de noite. Nela também é registrada a primeira vez que um importante fenômeno natural ocorreu. O Pôr do Sol. Um Farol preto e branco brada, ao próximo de seis da tarde, para que o Sol possa assentar em sua confortável poltrona de nada atômico. Num desses dias, atendeu a seu chamado uma menina com o gosto mais duvidoso de todas as meninas de sua idade e caixa postal. Seria essa a característica a definir Gabriela, não fosse as surpreendentes benesses que lhe oferecia o destino. Gabriela decidiu com cinco anos que não mais teria cabelos. Achava chato ter de pentear aqueles cachos em “Marias Chiquinhas”. Pediu a mãe uma tesoura e os cortou bem rente ao coro cabeludo. Não foi a surpresa de todos quando num pensamento Gabriela criou um longo cabelo incendiador movido a labaredas pujantes de fogo fátuo.

Aos 10 anos, Gabriela já tinha pintado o cabelo por pelo menos 7 vezes. Aproveitara também pra mudar de nome a cada tinta/jeito novo. A cada cor, um elemento diferente, uma nova sugestão do destino, um outro nome, uma outra personalidade. Gabriela, quando já se chamava Mística, pensou uma vez pular de um prédio para ver se nasciam asas, mas achou que seria abusar da sorte. Quando eu a conheci, a cor de seus cabelos era de um roxo clemência e seu nome era Galadriel. Eu olhei para seus olhos e logo estava ao seu lado arrastado pelos vendavais de suas tranças. Ao seu lado tudo era sorriso. De quase tocar nas orelhas. A sorte de Galadriel lutou persistente contra minha alma de mau agouro. Venceu, assim como todos que lutam contra mim.

Foram meses sem reencontrá-la. Na virada do ano corri até as águas de mar mais próxima procurando pelo desenho de sua figura ao longe, mas nada.

Numa noite tão branda que nem os monstros marinhos se atreviam picotar no horizonte, Galadriel me achou perdido no mar de areia suja da parte alta da minha terra. Vestia ela, um cabelo Laranja que cheirava e se movia como aqueles gostosos sucos industriais que vem em sachês. Sabia eu que em sua andança pelos diversos mundos que lhe cabia, havia sido prometida a um Marquês Espanhol. Sem esboçar palavra (Pois covarde, temo a guilhotina) esperei até que ela viesse e me sussurrasse. Galadriel encostou seus lábios quentes no meu ouvido e veio com uma história de que poderia transformar nossas roupas íntimas em trajes de banho e fazer de nossos óculos equipamentos de mergulho. Duvidei como bom cético que sou. Ela então sorriu tênue, pegou pela mão e saiu andando entre as pessoas. Carregou-me por incontáveis metros. Cada passo pela areia suja, a cada ser vivente que deixávamos pra trás, eu era tomado de toda serenidade que era possível emanar do mais absoluto ínfimo ato. Aquelas mãos atadas, a quase se perder. Seus dedos não me apertavam e me guiavam com a sabedoria de uma ninfa.

Galadriel me levou para o lodo oposto a água, me beijou o rosto e disse para jamais duvidar.



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2 comentários:

Anônimo disse...

Viajei...viajei.

Anônimo disse...

lindo