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Eu sempre soube mentir muito bem. Sempre foi um talento. Nato, eu acredito.
Se paro pra pensar em algum fenótipo possível desencadeador, não o encontro.
Contudo, mentir nunca foi minha arma mais eficiente e descobri isso cedo.
Com 8 anos tinha uma namoradinha chamada Calinca. Dessas que se pega na mão e beija no rosto. Um dia ela veio louca perguntar se eu tinha dito a minha mãe que estávamos namorando. Disse que não, veemente e olhando naqueles olhos que de tão pretos pareciam duas Luas novas. Mentira claro, na época eu achava que podia mentir pra todos, menos a minha mãe. (Que idiota) Nunca pensei que ela fosse descobrir, já que só eu e minha mãe sabíamos a verdade. Sobre verdade, calculei mal. Outra pessoa também sabia. Calinca descobriu que eu estava mentindo graças ao meu melhor amigo que também gostava dela e decidiu me denunciar. Funcionou pra ele. Um dia depois da revelação, ele estava com o mesmo namorico e pseudo namorada que era minha. Depois desse evento que descobri que mentir não era a melhor saída, aprendi um movimento muito mais interessante nos relacionamentos, o de “trocar de figurino”.
“Trocar de figurino” é inventar personagens. Descobrir o que quer a mulher e tentar ser aquela idealização o melhor possível. Sim, sim, eu tentei ser eu mesmo antes disso. Esta fase durou 10 anos, quando não passei se quer a mão em alguém. Então, depois que acordei do devaneio do “Be your self”, minha nova práxis dos figurinos encontrou um fortíssimo aliado, o mundo virtual. Lá era tão fácil brincar com os personagens. Bastava ser atencioso aos sites de relacionamento e rápido para promover mudanças de fotos e perfis. Eu arrasava, quebrava a banca, detonava a boca do balão. Nem encarava como um movimento ilícito e falsário, era parte do jogo. Satisfazia minhas sedentas e carentes amantes tecnológicas ao passo que também satisfazia meu fetiche. Era mesmo divertido e estimulante, mas não passava muito disso. Poucas vezes transcendia para o mundo real em encontros. Sempre temia que a mulher fosse uma louca pretendendo me jogar numa banheira e roubar um rim, ou pior, que fosse feia... Sem contar com a preguiça que sempre dava ter de tomar banho, passar desodorante, escovar os dentes, arranjar dinheiro, fazer pum pum e xixi pra não ter vontade no encontro, passar gel no cabelo, usar cueca limpa, levar a chave, não fumar, não beber... Não valia a pena.
Comecei a namorar, mas nunca quietei com o flerte virtual até um daqueles fatídicos dias que tanto me perseguem. Num movimento saudosista procurei e encontrei uma comunidade de pessoas maneiras-matreiras-cabreiras do meu passado. Lá estava Calinca. Mais velha, voluptuosa, morena, os mesmos olhos de Lua nova, sorrindo...
Maldita seja, nunca mais pude deixar de ser quem sou.
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2 comentários:
extorsão e drogas demais
todos já sabem o que você faz
mentir é fácil demais.
acompanharei esse blog. sua literatura é boa, rapaz...
muito boa. de literatura eu entendo.
dinho
"...esse mundo virtual não deve bastar nunca..."
Me disseram isso certa feita.
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