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Sempre quis um homem para ser seu.
Desde pequena, passava os dias a escrever em diários como seria quando tivesse um homem só seu. Pediu de Natal, de Páscoa... Depois percebeu que os feriados religiosos jamais se prestariam a um pedido da carne. Passou a desejar no carnaval, nas folias de bairro...
Não funcionou também. Estava ficando velha. Passou a cuidar do corpo, atenção a cada detalhe. Só não cuidava de sua cabeça.
Perdão, está clara o suficiente a expressão “cabeça” .
Cabeça literal, inteira mesmo. Não usava brincos, não passava batom, não penteava os cabelos. Era desejada, mas nunca beijada. Sua cabeça era descuidada por demais. Lia de Diários de Magos até Mundos de Sofia. Cabeça desleixada. Cumpria as normas, não se alterava, mantinha os horários, sem críticas. Cabeça perdida, cabeça ruim, não era beijada.
Oh, pobre Dulcinéia.
Sempre disse para si mesma que por mais necessitada que fosse, que por mais que sentisse aquelas cócegas engraçadas na virilha, seria forte. Não aceitaria nenhum Don Quixote. Não queria saber de homens franzinos ou sonhadores. Malucos é bem verdade, malucos.
Foi assim que a conheci. Abrira uma exceção nos seus devaneios. Fui o único homem a beijá-la.
Não me importava com sua cabeça desajustada, já tinha visto piores. Até gostava do cheiro esquisito dos seus cabelos. Mas jamais daria certo, sou um Quixote torto-tolo-fraco, assumo. Logo Dulcinéia percebeu e me chutou sem me deixar experimentar de suas carnes. Melhor assim, melhor assim...
Os anos passavam e Dulcinéia a oferecer seu belo corpo aos de bom coração. Que fique claro que nunca era recusado. Sempre satisfazia os homens que escolhia. Todos esperavam, contudo, que um dia ela cuidasse daquela cabeça. Sonhavam com o dia em que poderiam se livrar de suas máscaras e armaduras para escrever poemas. Os homens de Dulcinéia ansiavam celar e cavalgar num cavalo branco, carregando-a por continentes ainda não descobertos. Todos errados.
Dulcinéia vivia apavorada com essa possibilidade. Não queria ser levada para lugar nenhum. Gostava da sua vida, não era oca de forma alguma. Era um tutano diferente, cheio de vicissitudes. Era dela. Demorou a conquistar aquilo. Ninguém esperava também que aquela menina de escola pública fosse tão longe. Dulcinéia foi. Fez o inesperado. E tudo isso sem precisar da cabeça. O máximo que fazia com ela era prestar reverência. Ria do conceito de arrogância. Pegava Freud pelas ancas e rebolava.
Dulcinéia parava no espelho e se pensava uma mulher retada,
sem nem sequer saber quem era Jorge Amado. Não tinha contradição que a derrubasse.
Seu nada com nada era como manga com sal.
Assim foi até completar os 50. Quando morreu.
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morreu?
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